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20/04/2026

África é um sentimento

 


África não é apenas pó vermelho
África é um sentimento

 
É pulsar antigo de terra viva
é tambor que ressoa no peito
mesmo quando o silêncio chega
 
é horizonte em brasa
é memória que não se apaga
é raiz que se entrelaça no tempo
 
não é só sol que arde na pele
é também sombra que acolhe
é riso largo, é canto fundo
 
é lágrima que ninguém recolhe
é sopro que atravessa gerações
é nome dito em muitas línguas
com o mesmo peso no coração
 
é mãe e é caminho
é luta e é dança
é cicatriz e é beleza
em permanente esperança
 
África é um sentimento
sente-se
 
***
2026-04-20 - África é um sentimento
nn(in)metamorphosis

08/04/2026

O que trago nos passos

 


Onde anda esse espelho
que tanto te transporta
para os meus sonhos?

Procuro-o no pó vermelho
que ainda trago nos passos
no calor antigo do vento
que me chama pelo nome

Talvez esteja perdido
entre ruas que já não piso
ou guardado no abraço largo
de uma terra que não esqueço

Há noites em que te encontro
no cheiro da chuva quente
no silêncio cheio de vida
que só eu sei traduzir

E então percebo

o espelho não se partiu
nem ficou para trás

Trago-o comigo

É nele que te revejo
terra distante e inteira
quando a saudade me deita
dentro dos teus braços

 

***

2026-94-08 – O que trago nos passos - Mulembas
nn(in) metamorphosis 



24/03/2026

O que ficou

 




A distância que criou proximidade
 de um lugar que já não piso
 mas que ainda me pisa por dentro
 
Vive em cada memória quieta
no calor que às vezes sinto
 mesmo quando tudo muda
 
Cheiros que não voltam
ruas que só existem em mim
vozes que ficaram suspensas
num tempo onde já não chego
 
E é nessa ausência
que tudo se aproxima mais
como se perder
fosse outra forma de guardar
 
Longe
mas nunca inteira fora
porque há coisas
que não sabem partir

 

***

2026-03-24 – O que ficou - Mulembas
nn(in)metamorphosis




14/08/2025

Entre o Mar e a Saudade

 

Primeiro, mar. Muito mar. Por dias. A perder de vista, um horizonte sem fim que se perde no azul imenso.


Depois, terras vermelhas, palmeiras que balançam ao vento quente, o calor que se entranha na pele e os sons que envolvem a alma.

Assim se apresentou Angola (Luanda): com a sua luz, a sua cor, a sua vida… agora, saudade. Uma saudade que escapa, como areia fina entre os dedos.


A memória de Angola permanece comigo, como uma melodia distante. Aos poucos, perde as notas, mas não a intensidade do sentimento. 
Há muito não vejo as palmeiras a moverem-se ao vento que eu sentia no rosto, e o calor já não me envolve. No entanto, a essência de tudo o que vivi ali ficou gravada, imutável.

Angola vai-se afastando, como um eco que se desvanece, mas que nunca se deixa de ouvir.
A saudade agora é uma névoa suave que envolve os dias, uma lembrança que persiste onde o tempo e a distância não chegam.
 
Mas, por mais que se desvaneça
Angola será sempre parte de quem sou.


***
2025-08-14 - Entre o Mar e a Saudade - Mulembas
nn(in)metamorphosis


02/07/2020

Num ramo de cajueiro



No fim de tudo
pousada num ramo de cajueiro
ali está

Longe das sombras
exposta ao sol
Fulge

Não cai
como as folhas
Resiste

Dá conta
da melancolia num ramo vizinho
Esmorece

Lava-se
nas gotas do cacimbo
Reanima

No fim de tudo
pousada num ramo de cajueiro
Aguarda


***
2020-07-02 
nn(in)metamorphosis



 

05/09/2019

Miradouro da Lua



Poucos países no mundo têm um pedacinho do chão de Lua só para si.

Miradouro da Lua
A poucos quilómetros, a sul, de Luanda

É um lugar absolutamente incrível, onde a chuva e o vento transformaram as falésias em paisagem lunar, ali, mesmo em frente ao oceano.

Escultura natural
  Paredes de areia e argila

Esculpidas em forma de estalagmites, verdadeiras torres de vigia com formas desconhecidas.


Eu vi, e o assombro, continua intacto.


***
2019-09-04
nn(in)metamorphosis

10/06/2018

10 de Junho


Foi num 10 de Junho, que desembarquei no porto de Luanda, 



trocando o chão seguro do Infante D. Henrique, por um caminhar inseguro, um aperto no peito, um choro contido, a raiva de uma jovem que se sentia traída, desenraizada. Nem a visão do pai esperando-nos com um sorriso de encantamento, me sossegou. Iniciava-se, ali, uma aventura que não tinha pedido. O pai, como que adivinhando o que me ia na alma, abraçou-me e disse-me: É a primeira impressão, mas eu sei que daqui a uns dias, já descobriste tudo e vais gostar, e depois estamos todos juntos de novo, isso não é bom? E jovem pespineta lá ia dar razão? E que não, e que assim e que assado mas, havia os manos que também queriam a atenção do pai e a coisa ficou por ali.
Ao contrário do dia de hoje, aquele 10 de Junho era de sol radiante, um montão de graus que, na altura, em não saberia quantificar mas, que era bom era, mas não disse isso a ninguém, está bom de ver.  E lá fomos, levados à ilha, comer um gelado, antes de seguirmos para casa. E o tempo passou, os primeiros dias não foram fáceis mas, quando deixei a casmurrice, abri os olhos e o coração, apaixonei-me pela primeira vez na minha vida e, tenho a certeza, que poucas paixões vivem tantos anos, sobrevivendo à distância e ao tempo que passa. 
Um dia alguém me disse " espera só minina até beberes água do Bengo"  - Eu bebi e entendi. 
É algo como, quem passa por Alcobaça, não passa sem lá voltar, ou - primeiro estranha-se e depois entranha-se.

Regressei num dia como o de hoje, branco, num Maio chuvoso e frio


Risca aí no terreiro
si tu sabe  :-)





*****
2018-06-10
nn(9n)metamorphosis



12/09/2017

É sempre tão bom ver-te

Mulher Mucubal



Vem, senta-te aqui ao meu lado, deixa-me ver nos teus olhos, enquanto me falas, a lonjura do oceano que nos separa, das terras vermelhas e mulembas frondosas,  peles cor de ébano e missangas coloridas, kandengues correndo pelas bissapas de risos alvos e fáceis, chapinhando  nas cacimbas. Conta-me de novo, aquela caçada, em que o teu irmão te ensinou a usar uma carabina de culatra rectilínea com mira telescópica, o que eu me rio sempre que contas esse episódio. Ah, e daquele baile no Arco Iris, onde dançaste uma só vez, com todas as garinas presentes, e o marido de uma casada não gostou, hilariante. Fala-me da savana, do deserto do namibe, da praia morena, da Senhora do Monte, da serra da Leba, de impalas e gnus, de nunces, de hienas que riem, de homens e mulheres pequeninos que falam com estalidos de língua, bosquímanos, certo? - Em toda a minha vida, só vi um, perdido na cidade, de tanga, arco e flecha nada intimidado - E dos outros, altaneiros e orgulhosos da sua raça, Mucubais, não é? e lembra-me do sabor agri-doce da Mukua. Em troca, falar-te-ei de Luanda, da Ilha, do Morro da Lua, da Barra do Quanza, de plantações de algodão, de canas de açúcar, de gentes tão doces quanto elas, de kikuerra e de tantas outras coisas.

Sabes, sempre que me falas de lá, me levas lá. 
Não. Não é a mesma coisa. É diferente. Eu lembro com saudade silenciosa, tu dás voz às tuas raízes, e num ápice, as palavras voltam a ter aquele som incomparável de um - uê mámá - de um dona, hoje tém démdém, bánána, fruta pinha.

É sempre tão bom ver-te.
Livra-te de morrer antes de mim, juro que te mato, meu sekulu adorado.






Kandengues=Crianças
Bissapas=arbustos
Cacimba=poça de água
Garina= moça jovem
Mukua=Fruto do Imbondeiro/Embondeiro
Kikuerra=Mistura de farinha de mandioca e açucar, torrada
Sékulu=Homem velho



***** 
2017-09-11
nn(in)metamorphposis